Blog do jovino machado


26/07/2011


DEUS E JOVINO NA TERRA DO SOL

 

 

Ana Elisa Ribeiro

 

O panteão de Jovino Machado, poeta mineiro, parece uma festa. Deuses e diabos brindando num terreiro imenso. Talvez uma rave, cheia de pílulas excitantes, em estão presentes Hércules a cavalo, Oxum, Oxóssi, o Deus católico, São Judas, Platão e Iemanjá, pra equilibrar os níveis de testosterona do ambiente. É nessa mesma festa que deus ( com minúscula, como o diabo ) se prepara para enfrentar Rin tin tin e os despachos são encontrados na ponta da caneta do poeta. Todo esse ecletismo, ou ecumenismo, ou, ainda toda essa dúvida, faz parte dos poemas do Balacobaco, oitavo livro de Jovino, lançado, em uma bela e negra edição, pela Orobó edições, de Belo Horizonte. Balacobaco é dividido em três partes, bem distintas, que podem ser, também, consideradas os três grandes poemas do livro : Sua pele, Balacobaco e Candomblezado. A primeira parte traça uma comparação entre a pele de um afeto do poeta ( eu lírico ? ) e uma série de eventos ao longo da vida dele, culminando com " o ano em que adiei meu suicídio / e mergulhei no reino da luz ". A segunda parte é uma sequência surpreendente e quase exaustiva de atritos e navalhadas entre deus e o diabo. Tal sequência, em que abunda a assonância do fonema / d /, poderia ter se tornado cansativa, não fossem as surpresas divertidas que ela guarda, como " deus é o diabo do diabo ". A terceira e última parte aproxima-se dos orixás e da cultura negra. É nessa parte que Iemanjá se sacode na frente do espelho e os frangos de encruzilhada são colocados no caminho. O incômodo de Jovino Machado com deuses e diabos não é de hoje. Confiram-se essa teofagia e essa diabofagia em outros livros do poeta, pelo menos em Disco ( 1998 ) e Samba ( 1999 ), sendo que este é uma coletânea dos seis volumes anteriores. Venha ler neste terreiro.

 

Ana Elisa Ribeiro é poeta e professora. Publicou os livros Poesinha ( Poesia Orbital, 1997 ), Perversa ( Ciência do acidente, 2002 ) e Fresta por onde olhar ( Interditado, 2008 ).

 

 

 

 

Escrito por Jovino Machado às 20h35
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21/07/2011


FRATURA EXPOSTA

 

Este poema é um grito. Este poema é um desabafo. Este poema é uma constatação de impotência, um chamado, uma declaração de ódio e de amor. Este poema não mede consequências, este poema não espera condescendência, este poema não aceita condolências. Este poema é um pedido de socorro, uma mensagem numa garrafa lançada dentro de um bueiro, uma pichação debaixo de um pontilhão. Este poema é uma manifestação de guerra, de dor, de desespero, de esperança. Este poema quer dizer, este poema quer falar, este poema diz e fala. Este poema é ela, não é ele. Este poema não é ele um poema e sim é ela, ela mesma, a Poesia em pessoa. Este poema é a poesia, resume toda a poesia. A poeta que existe neste poema, a poeta encerrada nestas páginas, a poeta prisioneira da " cidade da solidão ", ela é quem senão a própria poesia ? Esta poeta só poderia ter sido concebida por Jovino Machado, um poeta que vem de Minas Gerais. Não é mais possível escrever poesia a não ser em Minas Gerais. Nunca foi. Em Minas vivem alguns de meus poetas preferidos, só mesmo em Minas Gerais eles poderiam existir. Não vou dizer quem são eles, pois vocês aí sabem quem são. Jovino Machado é um deles.

 

 

Joca Reiners Terron

 

São Paulo, inverno de 2005

 

 

 

 

 

Joca Reiners Terron nasceu em Cuiabá, em 1968, e vive em São Paulo. Foi editor da Ciência do Acidente, pela qual publicou o romance Não há nada lá ( 2001 ) e os livros de poemas Eletroencefalodrama ( 1998 ) e Animal anônimo ( 2002 ). É autor também de Hotel Hell ( Livros do Mal, 2003 ), Curva de rio sujo ( Planeta, 2003 ), Sonho interrompido por guilhotina ( Casa da Palavra, 2006 ) e Do fundo do poço se vê a lua ( Companhia das Letras, 2010 ) Nota: o texto acima foi escrito originalmente para as " orelhas " do livro Fratura Exposta de Jovino Machado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Jovino Machado às 16h37
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14/07/2011


TRAÇOS DE UMA INESQUECÍVEL TERTÚLIA

     Na tarde do dia 27 de novembro de 2010, alguns amigos e colegas do poeta e jornalista Alécio Cunha atenderam à convocação para um encontro no bar do Nonô, bairro Carmo, para minimizar um pouco da saudade deixada pela lamentável e precoce partida de Alécio, aos 40 anos, no ano anterior. Foi uma tarde ensolarada e animada, regada a cerveja, pinga, poesia e muita prosa, incluindo música, cinema e literatura - bem ao estilo aleciano. Vez por outra, a cada nome de ator não lembrado do papo cinematográfico, trecho de poema recitado ou estilo musical mencionado, um brinde era feito - não necessriamente pelo grupo inteiro, mas por aqueles dois ou três que discutiam na mesa assuntos pulverizados por conversas de toda sorte. Flagrei ainda alguns brindes solitários, sussurados entre o copo e a garrafa e um olhar lançado para cima. Enquanto os dois primeiros eram mais festivos, este era mais silencioso, comovente. A turma estava devidamente capitaneada por Márcia Queiroz e iluminada pela lúdica presença do filho João. Além de Coca-Cola e petiscos, João solicita ao garçom parte do bloco de pedidos e, de posse de uma caneta vermelha, começa a produzir vários desenhos daqui e dali. Quando as pessoas se dão conta, percebem que são elas mesmas que têm suas fisionomias sendo incorporadas aos traços de João. O filho de Alécio e Marcinha simplesmente desandava a produzir caricaturas dos presentes sob a forma de animais e logo a produção artística unificou os assuntos da mesa - não só em função da qualidade dos desenhos, mas devido também à pergunta com a qual João foi bombardeado várias vezes : por que tal pessoa fora associada a determinado animal ? Jovino Machado, um sapo. Adriana Versiani, formiga. Simone Neves, cobra. Ricardo Teixeira de Salles, tartaruga. Mário Alex, lagartixa e assim sucessivamente, incluindo alguns momentos curiosos, como transeuntes anônimos que passavam por ali, além de primeiros esboços. Aqui, o meu caso serve como exemplo intrigante : na primeira versão, a mim foi atribuído o desenho de um lobo, mas depois o veredicto gráfico do artista a mim foi um carneiro... com cara de lobo ! ( Ou seria um lobo em pele de carneiro ? ) De uma forma ou de outra, ou melhor, seguindo várias formas e bichos, o resultado produzido por João tem um misto de irreverência, sagacidade e observação. Não é à toa que, por exemplo, o desenho dos transeuntes, estranhos ao autor, não tem, digamos, uma animalidade definida, sendo mais monstruosos do que os amigos da mesa, que com muito afeto e humor eram associados aos seus respectivos bichos. Entre gargalhadas e piadas recíprocas dos presentes, cada um comentando e fazendo suposições das razões que o levaram a ser traçado e troçado como tal animal, eu me lembrei de que a primeira música composta - solo - por Noel Rosa, cujo centenário de nascimento ( 11 de dezembro de 2010 ) se aproximava daquela data do encontro, foi precisamente Festa no Céu, em que coloca a bicharada para fazer uma farra nas alturas. De lá, ou de onde for, certamente Alécio terá aprovado esta farra dos bichumanos na fantástica Terra de João, ainda mais se considerarmos, para a ocasião, os apropriadíssimos versos alecianos de Água Forte:

palavras são riscos

grafite pintada em tons tristes

então olhas o outro

revolução dos pincéis

as cores mudam

desnudam o sentido

exato dos astros

tua boca sorri

                                             ( de Lírica Caduca, 1999 )

Nísio Teixeira

Professor de Jornalismo da Fafich / UFMG e jornalista. Atualmente colabora no site de cinema Filmes Polvo www.filmespolvo.com.br

 

                                          

 

 

Escrito por Jovino Machado às 19h52
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